Minha História


Minha História



Olá amigo(a)  algo lhe trouxe a este espaço. Quero lhe dizer que não foi a toa e você não sairá do mesmo jeito que entrou.
Você está preparado? Gosta de emoções fortes? Esta é uma daquelas estórias que nos causam revoltas, nos colocamos no lugar de quem passou, choramos e até usamos como exemplo. Não sei qual o sentimento que ela despertará em você, mas com certeza alguma coisa você vai sentir. Tudo descrito aqui é verdadeiro.


Sou Jossandra Barbosa, tenho 42 anos, tenho dois lindos filhos, formada em História pela UFPI do Piauí, professora, pesquisadora, psicopedagoga, neuropsicopedagoga, especialista em educação especial, autora, empreendedora e acima de tudo uma pessoa que acredita no amanhã. Não cheguei ainda onde eu quero. Nem conquistei, tão pouco, todos os meus sonhos. Mas trabalho todos os dias para que eles se realizem. Convido você para conhecer um pouco da minha história pessoal e profissional e se alguma parte dela contribuir com reflexões sobre a sua vida já valeu apena você estar aqui. Grande abraço desta nordestina que vive intensamente um dia de cada vez.
 



Fui adotada seis vezes.
O que vou contar  abaixo são relatos das conversas que ouvi entre minha mãe adotiva e minha madrinha  de batismo, e as vezes da minha mãe com outras pessoas ou dela sozinha comigo. Não posso afirmar que são verdadeira. Mas da mesma forma não posso dizer que são falsas. Fui adotada cerca de seis vezes. Até chegar na família, que realmente me criou, foi um longo e doloroso relacionamento entre mim e minha mãe biológica. 


 Sou resultado de uma relação que nunca deu certo, só conheci meu pai biológico aos dez anos e só o vi por uma única vez. Minha mãe biológica não tenho nenhuma lembrança real dela. Ela era jovem e fui a primeira de muitos filhos que ela teve. 

Ouvi diversas vezes, minha mãe adotiva contar como cheguei em sua casa. Um criança desnutrida e mal cuidada. Mas também de como sobrevivi os primeiros anos num lugar inóspito e com uma mãe que não queria aquela criança. Uma destas  histórias é de quando eu tinha cerca de seis meses de vida cai de um grande penhasco. As circunstâncias não ficaram claros, mas havia boatos que fora minha mãe biológica que me jogou, mas que sobrevivi e sem explicações não tive muitos ferimentos. 

Entre meu nascimento e até ser adotada por minha mãe definitiva conta-se que fora umas seis vezes adotadas por outras pessoas que ficavam com pena e terminavam alimentando e cuidando. Conta-se que a criança passava algum tempo numa casa , quando começa a responder com melhoras ela ia e levava a criança de volta para sua casa. 


Sobre minha chegada até a casa da minha mãe adotiva o que sei , é que minha madrinha depois de se mudar para a casa de frente a dela , em uma conversa , indicou uma moça para trabalhar. A moça tinha uma criança e assim minha mãe biológica passou a trabalhar como empregada doméstica na casa da minha mãe adotiva.
 
A minha aparência era de uma criança desnutrida. E apesar de ter cerca de dois anos eu não caminhava e parecia um criança com menos de um ano. Mas como meus pais me adotaram? Bem, minha mãe contava que por duas semanas observou o comportamento da minha mãe adotiva. Ela era casada não há muito tempo e não tinha filhos, pois meu pai adotivo já tinha uma idade avançada. 


Incomodada com minha aparência física e com o desleixo da minha biológica, ela começou a falar com o marido sobre a possibilidade de adotar aquela criança. Enquanto minha mãe biológica fazia os trabalhos domésticos eu fica sentada num quintal o dia todo. Não brincava, não se arrastava, não chorava e dormia e acordava praticamente no mesmo lugar. Eram poucas vezes que ela me alimentava e quando isso acontecia era com uma pequena vasilha com um pouco de comida (feião, arroz, algo assim). 

A aparência daquela criança incomodava minha mãe adotiva. Era uma criança apática e sem vida. E a forma como era cuidada era como se fosse um pequeno animal. Sempre chamada por nomes grosseiros e xingamentos.

Depois de convencer o marido, minha mãe adotiva pediu para me criar e já acostumada a dar aquela criança, logo minha mãe biológica aceitou e bem rápido foi embora. Não sei contar o tempo e nem se ouve algum acordo. O que sei é que quando tinha dos três para os quatros anos ela voltou para me pegar. Mas a minha família adotiva já tinha me registrado e foi bem enérgica deixando claro que não me entregariam. Assim nunca mais a vimos

Meus pais adotivos foram pessoas muito boas. E tive uma boa vida até os oito anos de idade, quando meu pai morreu, minha mãe ficou sozinha e passou muitas dificuldades, teve câncer e morreu quando eu tinha 14 anos. Não tive irmãos.

Mas, fui muito bem cuidada. Foram muitos tratamento para que eu caminhasse. Remédios e uma alimentação adequada para que me desenvolvesse. Sem filhos, ter uma menina foi um sonho realizado pela minha mãe adotiva. Tive muitos brinquedos, uma linda casa, um quarto, um lindo quintal arborizado, escola particulares, lindos vestidos e muito carinho. 


Apesar de todos os desafios. Agradeço muito a bondade daquele casal. De cuidar de uma criança totalmente desconhecida. E este ato de bondade e amor me deram a oportunidade de sobreviver e crescer.




Minha Infância. Poucas Memórias

Quanto eu tinha 08 anos meu pai adotivo morreu de uma grave doença, não lembro de muitas coisas sobre ele. Importante dizer que tive muito mecanismo de defesa e que parte da minha memória sobre a infância fora apagada. Não tenho exatamente uma explicação e não sei contar quando isso aconteceu. Mas sou uma adulta que não lembra de muitos fatos da infância. Principalmente entre o meu nascimento aos  dez anos. A maioria das minhas lembranças são a partir dos onze anos. 


No meu livro empreededorismo na psicopedagogia começo o primeiro capítulo contando uma história. Quando eu tinha uns nove para dez anos eu tive queimaduras sérias nos pés. Eu andei sobre uma fogueira. Mas só horas depois minha mãe descobriu minhas queimaduras. Tenho lembranças de não ir a escola. E ficar assistindo desenhos animados com o ventilador ligado diretamente nos meus pés. 

Não tenho muitas fotos da infância. Não sei explicar o porquê. Talvez porque era uma uma época que as fotos eram difíceis e raras. Também não tenho lembranças de passeios, festas, brinquedos e praticamente nada antes dos oito anos. O que sei são relatos que minha mãe me contava na adolescência, como " que ela me arrumava todo dia as cinco da tarde, que eu ficava sentada numa cadeira na calçada"... coisas assim

Na foto acima eu tenho uns oito anos. Tínhamos um cachorro chamado Kemps. Mas não tenho qualquer memória deste cachorro. Morávamos numa casa grande. Tinha uns oito cômodos. Um grande e lindo quintal cheio de árvores. Moramos lá até meus doze anos. 

Da morte do meu pai tenho uma única lembrança. Dele deitado na cama. Antes de colocá-lo no caixão. Dele vivo só consigo lembrar de uma única cena. Ele no quintal andando e perguntando pelo cinto e segurando as calças. Ele morreu com quase noventa anos. Teve um AVC.  Foi um grande e abastado fazendeiro, teve três filhos adotivos do primeiro casamento. E quando casou pela segunda vez com uma jovem mais nova quase 50 anos.  Deixou apenas uma casa, era viciado em jogos de azar e perdeu muito dinheiro com o vício. 

Quando ele morreu minha mãe, sem muito estudos e sem dinheiro passou a trabalhar com vendas, foi vendedora de perfumes e de vários materiais porta a porta e organizando reuniões. Era uma excelente vendedora. Era mulher muito esforçada. Pequena , franzina, não casou de novo, mesmo tendo pretendentes, não lembro dela tendo relacionamento com ninguém. Muito católica, participa de grupos da igreja, estava sempre envolvida nas missas, liturgia e procissões. 



Com 11 anos eu roubei, menti, me apaixonei por uma garota, fiquei reprovada, desobedecia minha mãe, fugia de casa, fumava folhas de mamão amassada, matava aula, me sentia confusa, perdida e ao mesmo tempo feliz. Eu era uma Rebelde! 

Gosto de dizer que fui adolescente somente por um único ano. Quando eu tinha 11 anos. 1989. Minha mãe estava muito doente. Não tinha tratamento na pequena cidade do interior onde morávamos, por isso ela viajava para capital e eu ficava na casa de vizinhos e amigos. Estudava numa escola de freira. Bem rígida desde do primeira série ( hoje segundo ano). 

Era uma menina  tímida, sem amigos na escola. Ou só não lembro deles. Não lembro da quinta série, mas me lembro muito bem da sexta série. Principalmente porque chegou a nossa sala uma menina nova. E ela era diferente, ela era Rebelde. 

Por ser pequena, magrinha, de óculos, cabelos desalinhados, os meninos estavam sempre apelidando e fazendo chacotas. Estava sempre perdida nos meus próprios pensamentos nas aulas. Passava horas viajando no meu mundo de coisas possíveis. Eu ia a pé para a escola, uma caminhada ,cerca de uns 20 minutos. Era uma aventura. Cada calçada , cada pedra era um mundo imaginário cheio de possibilidades. Ia sempre sozinha para a escola. 

Da escola lembro ser muito grande. A farda era saia marrom abaixo dos joelhos, uma blusa branca com punhos e gola marrom. O sapato era sempre um Kichute bem amarrado com meias três quartos brancas. Não lembro de mochilas, livros ou cadernos. Lembro do campo de futebol, dos banheiros, das salas de aulas. Lembro das cadeiras e mesas da sala e que eu sentava sempre em locais em que eu não chamasse atenção. Certa vez levei brinquedos e brincava escondida durante a aula, mas meninos viram e foi uma oportunidade que eles não deixaram passar pra fazer daquilo um momento constrangedor. 

Mas aquele ano, não sei cronologicamente em que mês  e nem como, mas me tornei amiga da menina nova. Ela ganhara uma bolsa de estudos, mas não era muito aceita por morar numa área bem discriminada da cidade. O que me lembro desta amizade é que ela me ensinou a roubar o lanche da cantina da escola. Depois me ensinou a pegar dinheiro nas casas de apostas do jogo do bicho e assim gastávamos o dinheiro comendo sorvete. Lembro de ter apanhado muitas vezes da minha mãe que queria impedir aquela amizade. Mas ela durou durante quase todo aquele ano. E eu me diverti muito naquele ano. E como me diverti.

Este é um dos anos que eu mais tenho memórias. Lembro de quando eu fugia das reuniões da igreja onde minha mãe estava para me encontrar com minha amiga e os dois primos delas. Eram duas horas em que podíamos brincar na praça, conversar e começar a descobrir a sexualidade. 

Ela foi minha primeira paixão. Mas também fui apaixonada pelo primo dela. Sem falar que neste ano eu também me apaixonei pelo professor de Matemática e odiei a professora de Geografia , porque era esposa dele. Inclusive fiquei reprovada nesta matéria. Ainda foi neste ano que numa das viagens da minha mãe fiquei na casa de uma das colegas dela, e conheci o quase meu primeiro namorado. Sim eu só tinha onze anos. 

Hoje , adulta, consigo entender o que aconteceu naquele ano e como ele foi intenso. Mas para entender vou ter contar como fui abusada sexualmente dos oito aos treze anos. Mas isto é outra estória que contarei mais a frente.





O tamborete...


Quando eu completei 12 anos minha mãe adotiva descobriu que tinha câncer. Nos mudamos para Teresina em busca de tratamento. Pra mim foi uma dura partida. me lembro do dia em que parti. Viajei sem me despedir de ninguém. As aulas estavam para começar em Teresina e meu tio materno fora me buscar para levar para casa dele. Pois minha mãe só ia depois que vendesse a nossa casa. Foi numa manhã que ela me disse que naquele mesmo dia eu iria embora. 

Morava frente a casa da minha madrinha de batismo católico. Fui até lá. Mas não consegui dizer que ia embora. Apenas olhei o quintal, a sala falei com algumas pessoas e fui pra casa. Fiz o mesmo em casa. Fui a todos os lugares que eu gostava. Subi no pé de carambola, fiquei lá sentada alguns minutos, depois subi as escadas da caixa d'água lá de cima dava pra ver todas as outras casas. Fiquei lá em cima olhando, não chorei, mas sabia que não voltaria mais para aquele quintal que eu adorava. Ele era meu mundo imaginário. Nele eu viajava no meu triciclo e tinha muitas aventuras. Ora eu descia as escadas como se estivesse em grandes shows, ora eu era exploradas de outros planetas e como eu corri e brinquei naquele quintal. Embarcamos na rodoviária perto da hora do almoço. Lembro de chorar muito na viagem. De me senti triste. 

Minha mãe só veio alguns meses depois. Alugou uma casa pequena num conjugado de casinhas alugadas. tinha apenas três comodos , lembro de pouca coisa deste lugar. Lembro de ser quente, de ter uma vizinha que dança num grupo de dança e que eu gostava de ficar olhando ela e as amigas ensaiar. Era inicio dos anos 90 e a moda era aerobica nas praças, então aos domingos iamos ver os grupos se apresentarem na praça da igreja. 

Compramos uma casa não muito longe dali. E moramos apenas dois anos. Minha mãe morreu em dezembro de 1992. Quando completei 14 anos. Foram dois anos difíceis. Não tinha irmãos, somente parentes maternos que moravam próximos. Cuidava da casa no turno da manhã e estuda numa escola pública a tarde. 

Apesar de ter ficado reprovada na sexta série, fiz duas séries num ano só, pois havia tido uma greve que inviabilizou o ano escolar em Teresina e naquele ano todos os alunos fizeram dois anos num só e assim eu recuperei o ano perdido. 

Eu tinha treze anos quando comecei a trabalhar. Minha mãe teve muitas crises, eram dias na uti, quando voltava estava muito debilitada. Como era uma excelente vendedora ela começou a me ensina a vender. Além das tarefas de casa, todo os dias estudava mais de duas horas cada produto, para que ele servia, suas referências, estudava o manual e pratica explicando para ela sentada numa mesa. 

Assim a noite íamos as reuniões. Mesmo ela debilitada , fazíamos muitas reuniões em bairros próximos. Lembro de mim pequena com uma enorme sacolas de uma famosa marca de recipientes. Aos domingos acordávamos as cinco da manhã, partíamos para feira e lá vendíamos perfumes numa calçada. 

Aos quatorzes cuidava da casa, lavava, passava,  estudava, trabalhava e sempre que podia sentava na calçada de casa ora pra conversar com as meninas vizinhas, pular elástico e brincava de queimada. E numa destas brincadeiras  

Acompanhei minha mãe até seu último suspiro. Lembro de mim em tantas madrugadas, de joelhos frente a um tamborete(peça de madeira usado no nordeste como assento igual ao da foto) com uma vela e uma imagem católica rezando para que ela sobrevivesse até amanhã seguinte. Foram tantas promessas, tantas orações que eu fazia na calada da noite, sozinha ouvindo seus gemidos dolorosos e sofridos. 

Lembro dela se definhando cada dia mais, dos seus gritos de dor, de sua clemência a Deus para viver. Um dia ouvi sua oração: "Meu Deus me dê mais vida pra mim criar a Jossandra pra que ela não fique desamparada". 
Naquela madrugada peguei o tamborete, coloquei uma toalha de banho, acendi uma vela, peguei a imagem e comecei a oração: "Meu Deus se todo o sofrimento de minha mãe para continuar viva é para que eu não sofra , então a liberte e deixe que eu siga o meu destino, eu te entrego a vida dela e a minha vida."
Minha mãe morreu na manhã seguinte as dez horas da manhã, calma, devagar e com um semblante meigo, lembro de ver um pequeno sorriso em seu rosto. Não chorei. Minhas tias passaram dias dizendo que eu não a amava mas eu sabia que era o melhor para ela. Depois do enterro, tudo que eu tinha coube em duas sacolas plásticas brancas, sai da minha casa , peguei um ônibus e segui o meu destino para uma nova jornada em minha vida.


Solidão e Adolescência

Lembro do meu aniversário de 15 anos. Um festa simples com apenas umas poucas pessoas. Depois da morte da minha mãe fui morar com uma tia materna. A viagem para sua casa me lembrou de quando sai da pequena cidade e fui para Teresina. Novamente sem me despedir de ninguém. Sentada no ônibus chorava olhando pela janela. De novo eu ia a um destino desconhecido. Uma viagem que nunca esqueci porque nela perdi um grande tesouro. Meu caderno de recordação. 
Quem foi adolescentes nos anos 90 e não construiu um caderno de recordações? Um espaço para os amigos falarem sobre o que acham de você, para alguém se declarar , para colar coisas importantes. Tinha tudo ali um ano inteiro de recordações. Aquele tinha sido um ano difícil. Era o ultimo ano do ensino fundamental. Minha mãe tinha morrido. Não passei na escola técnica e não consegui uma vaga naquela cobiçada escola. Perdi todos os amigos, deixei pra traz o primeiro namorado e tinha que encarar um ensino médio e começar do zero tudo de novo. 

Ter 15  e 16 anos é muito importante. São anos inesquecíveis, emocionantes e eletrizantes. Mas não os meus. Fui morar com uma tia com mais de 50 anos. Solitária. Sem filhos, sem casamento.  A relação não era boa. Parte do meu tempo era sozinha. Foram dois anos de muita solidão. 

Morávamos num pequeno apartamento de um condomínio popular. Estudava em outro bairro no turno da tarde. O primeiro ano estudei numa escola pública e os dois últimos anos numa escola particular. Minha tia era enfermeira, tirava muito plantões e eu ficava sempre sozinha. As vezes dias. 

Desta fase me lembro basicamente de três coisas: de estar e me sentir sempre sozinha, da mania de limpeza da minha tia e de estudar muito.

Não tinha onde ir. Nem amigos. Em uma época sem internet e redes sociais. Moramos no segundo andar. Lembro de ficar na varanda as vezes olhando os outros apartamentos e de longe imaginar o que as pessoas estavam fazendo. E assim eu podia me imaginar em outros lugares, em outras casas, em outras vidas. 

Entre 16 a 17 anos não lembro bem, passei a participar de um grupo de jovens da igreja do bairro. Deste grupo ingressei em outro que era pra ser professora de crianças no domingo pela manhã. A semana eu me sentia muito sozinha, mas no final de semana eu podia fazer algo que me sentia bem. E aos poucos comecei a me destacar nos grupos, ser líder e ganhar mais tarefas na igreja. Era uma forma de sair de casa e ter algo para fazer. 

O vazio que eu sentia não acabava. Me sentia sozinha. Chorei muitas vezes. Me perguntava o que ia fazer. Para onde eu iria. O que seria do meu futuro. Era um patinho feio deslocada nas festas de natal da família. Era a menina sem pai e sem mãe. Uma família que não parecia ser a minha. Não se importavam comigo. Não existia para eles. Fato que constatei mais tarde e até hoje que não tenho contato com ninguém. 



Minha Segunda Rebeldia

Começou em maio de 1996. Faltava um mês para completar 18 anos. Comecei uma nova fase. Terminei o ensino médio em 1995. E não passei no vestibular. Então em 1996 eu fui estudar no centro da cidade em um cursinho pre-vestibular no Sesc. Em pouco tempo fiquei entediada. Os alunos da minha turma eram muito atrasados, pessoas com idade avançada, professores repetiam os conteúdos diversas vezes o que me deixava irritada. Então passei a não ir nas aulas e no horário da aula comecei a estudar francês na biblioteca. 

Numa manhã entrou um grupo de 4 rapazes sentaram na mesa que eu estava e começaram a puxar assunto. Naquela manhã outra colega da turma estava lá comigo. No dia seguinte dois daqueles rapazes voltaram e  na semana seguinte novamente. Depois de conversas e almoço em mais ou menos um mês comecei um namoro que nada agradou a minha tia. 

Um rapaz totalmente o oposto de mim. Mais velho, livre, morava em cidade em cidade, viajava a cada mês cidades diferente. Músico, vendedor, descolado, alegre, falante, confiante e muito engraçado. E assim mergulhei em mais um ano de rebeldia. 

Matava aulas, não estudava, gritava e brigava com minha tia, dia após dia, fui me afastando dos grupos da igreja e o namoro foi crescendo. Perdi a virgindade, comecei a sair de casa, comecei a ir a festas, bebi pela primeira vez e me sentia livre. 

No final daquele ano passei no vestibular em duas faculdades pública, uma federal e uma estadual. Passei o primeiro natal fora das festas de família. Sentia que tinha encontrado um caminho. Não sabia , que mais uma grande jornada estava só começando.


A viagem para São Luis

Era primeiro de maio de 1997. Viajamos para a cidade de São Luís onde ficamos 10 dias e depois disso minha vida mudou completamente. 

Fazíamos quase um ano de namoro. E ele era um vendedor de mercadorias em praças e feiras. Foi então que minha rebeldia deu um grande passo. Avisei a minha tia que ia viajar, ela não acreditou e foi trabalhar. Quando voltou eu já tinha partido. E aquela foi praticamente nossa última conversa pois eu jamais voltei para casa. 

Foram dez dias incríveis. Sol, praia e uma sensação de liberdade incrível. É assim que você sente quando se tem 18 anos e esta totalmente apaixonada. Sente que pode vencer qualquer barreira. Que pode desafiar qualquer pessoa. Que vale a pena qualquer sacrifício.

Foram dias cheio de emoções mas que me dariam uma pequena amostra do que seriam meus próximos anos. Com pouco dinheiro ficamos hospedados na casa de um parente do meu namorado. Nos acolheu com muito carinho, mas era uma casa muito humilde e não tinha muito espaço tivemos q dormir numa rede juntos. Dois dez dias passado na ilha parte deles foi sozinha. 

E assim comecei mais uma jornada de solidão. Seis anos mais velho, descolado, vivido, com muitos amigos fui deixada em casa e por noites fiquei sozinha. Na volta para casa decidimos morar junto. E assim fizemos. 

Minha mãe deixou poucas coisas uma dela foi uma casa. Depois de alguns parentes que moraram nela saíram eu tinha conseguido a chave e assim quando voltamos de viagem começamos a aventura de morar juntos. Voltei ao apartamento da minha tia uma única vez até hoje. Uma semana depois de voltar da ilha peguei um carro de frete e fui sozinha pegar minhas coisas, peguei minha cama, roupas, livros e uma cômoda, minha tia apenas disse que eu iria me arrepender e voltar. Talvez até tenha me arrependido em algum momento , mas nunca mais voltei e nem falei com ela desde daquele dia. 


 A solidão é minha companheira

Os dois primeiros anos de casada foram intensos. Muito sexo, brigas, alcoolismo, violência, fome e muita solidão. Assim eu fiz 19 e 20 anos. O primeiro ano passei parte dele sozinha. Viajando o marido ficava muito tempo fora de casa. Quando voltava ficávamos o máximo de tempo juntos para isso perdia as aulas na faculdade e ficávamos em casa. Era um relacionamento com muita paixão. Mas esta paixão não permitia que eu visse o que estava errado. 

Como ficava muito sozinha tomei uma decisão naquele ano e minha enteada de apenas quatro anos começou a morar comigo. Sim eu tinha duas enteadas. Uma de quatro e outra de dois. Mas moravam em cidades diferente e uma eu nunca vi. Era criança tímida e com um histórico de abandono , talvez tenha me projetado naquela pequena criança e encontrado alí uma companheira para aliviar a solidão. 

Era minha companhia. Brincávamos e conversávamos. Mas as coisas ficarão difíceis. As viagens foram diminuindo, um emprego em uma cidade vizinha ele conseguiu mas não durou muito. Era comum chegar bêbado ou nem voltar a noite. Faltava de tudo em casa. Então busquei um trabalho. 

Dormimos durante muito tempo na minha velha cama de solteiro, os móveis eram poucos. Parte do dia eu passava na universidade. O que foi mudando quando consegui um emprego. Deixava a pequena na escolinha , ia ao trabalho e pegava poucas disciplinas na universidade. 

Aqueles anos foram sombrios. Ficar sentadas na calçada a espera de alguém que não chega é horrível. Colocava a pequena para dormir e minha longa espera continuava. Ora lendo alguma coisa, ora andando de um lado para outro. Noite após noite. Em algumas delas ele chegava tão bêbado que mal conseguia andar. Vomitava, chorava, brigava, batia, algo também o incomodava não era a vida que ele sonhara e nem queria. Tudo estava errado. 

Sozinha não tinha com quem conversar sobre o que acontecia. Depois de sair da casa da minha família todos os parentes se afastaram. Ninguém me visitou. Tias, tios, primos e primas. Ninguém veio. Como seu simplesmente não existisse. Os vizinhos nos achavam estranhos. Pois eu não era mais adolescente que morava ali. Era uma jovem triste que não falava ninguém e vivia trancada sozinha , na maior parte do tempo , naquela casa. 

Quando a situação ficou muito critica e passamos não ter o básico para comer a pequena enteada foi embora e só voltaria meses depois. Não tínhamos condições de alimentar nem a nós mesmos imagine uma criança. Comecei a trabalhar como professora de reforço particular no turno da manha das 7 as 9 da manhã, tinha aula na universidade de 10 as 12 , das 14 as 17 eu conseguir uma vaga numa pequena escola de reforço no centro da cidade e de lá eu voltava pra universidade onde tinha aulas das 18 as 22h. Chegava as 23horas no ponto de ônibus mas perto da minha casa e ainda caminhava uns 20 minutos para chegar em casa. Que normalmente não tinha o que jantar então ia arrumar alguma coisa , dormir e no outro dia as cinco da manhã já estava de pé para começar novamente a jornada do próximo dia. 

Normalmente não tomava café e raramente almoçava. Neste intervalo comia um lanche algo rápido. Certo dia ao ver  a mesa do café da manhã da criança que eu dava aula de reforço perguntei a empregada se eu podia tomar café pois os patrões já haviam saído e a criança ainda estava se arrumando para nossa aula. De forma ríspida a emprega disse que não.

Não tinha como comprar livros ou até mesmo tirar xeroxs então pedia os textos emprestados de outros alunos, ou lia na sala enquanto o professor explicava quando não conseguia pegar emprestados na biblioteca. Li e dormi em ônibus que não sei necessáriamente o que fiz mais entre os dois. Era uma distância de uma hora de ônibus para chegar na faculdade assim tinha tempo de ler o material das aulas ou de dormi.

Apesar das dificuldades era uma boa aluna, tinha um bom desempenho e boas notas. Fiz Licenciatura em História na Universidade Federal do Piauí. Sociologia, filosofia , arqueologia , política, economia eram minhas materiais preferidas sempre tive paixão por culturas e sociedade assim sempre fui boa em argumentar com os professores. 






O Mimeográfo

Em 1999 eu tinha 21 anos cursava licenciatura em História e decidi montar minha primeira escola.  Havia começado a lecionar em uma escola de reforço e depois de ser despedida decidi que montaria meu próprio negócio.
Usei minha casa para tal façanha, como tinha pouquíssimos moveis nos desfizemos deles. Troquei a cama e a cômoda por algumas horas de propagandas. E o que deu para ser vendido, vendemos. E assim começamos a aventura de ser empreendedores e professores.

Digo nós porque não fiz sozinha. Mesmo diante dos problemas continuamos casados  e sem emprego fixo ele passou a me ajudar com as reformas e preparações para a escolinha. 

Passamos alguns meses fazendo a reforma. Muita coisa, Valdirez fez sozinho e aos poucos a casa foi tomando forma de uma pequena escola. Eram apenas 5 cômodos e assim formamos três salas de aula, diretoria e um pequeno banheiro. Casa tinha quintal e um espaço na frente ambos serviriam para o recreio.  

 Começamos a divulgar entre os vizinhos e nas ruas mais próximas. E os dois  primeiros anos funcionou apenas como reforço e foi um sucesso. Tínhamos alunos pela manhã e tarde. E passei a ir pra universidade só a noite. 

Já com uma boa aceitação passamos então a funcionar com ensino infantil e aos poucos inserimos o ensino fundamental até o quarto ano. 

Como a escola ficava num bairro de periferia a taxa de mensalidades cobrada era apenas. Os desafios do primeiro ano foram muitos. Um deles era o foto de não termos um mimeografo e por isso fazíamos todas as tarefinhas a mão o que dava muito trabalho. Então um dos nossos primeiros objetivos foi economizar para a compra de um mimeografo usado. 

E conseguimos Lembro que o valor era 70,00 para realizar a compra no centro da cidade em uma loja de usados. Valdirez saiu pela manhã por volta de umas nove horas para comprá-lo e fiquei empolgada e ansiosa. Ele voltou as duas da manhã totalmente bêbado. Sem o mimeografo. Sem Dinheiro. 

No dia se seguiu reuni com as colegas professoras no final da aula e contei o acontecido que continuaríamos a fazer as tarefinhas a mão, porque o dinheiro não dava pra xeroca-las. Foi a ultima vez que meu marido bebeu naquele ano e nos próximos 14 anos, quando ele voltou a beber. 
 Um mês depois conseguimos comprar um mimeografo amarelo, fiquei tão feliz quando o vi entrar na sala com ele. Mas eu não sabia como usar. Não tinha ideia do que fazer.

Na universidade ninguém tinha me ensinado a lidar com aquele aparelho. passei horas daquele dia tentando decifrar aquele mistério e nada. No dia seguinte marquei com as amigas professoras uma reunião de planeamento no sábado e pedi para que cada uma fizesse sua tarefa e dessa forma observei atentamente como elas fizeram no estêncil e depois rodaram no mimeógrafo Quando elas saíram foi a minha vez. Fiz recadinho, figuras, e muitas tarefinhas naquela máquina moderna.

Lembro das tarefas que aprendi a fazer com tia Francisca, estava sempre de olhos quando ela desenhava no estêncil, como ela dividi-o e fica tudo tão certinho, sem borrões, como apagar algo errado, como decorar e deixa-las lindas.

Gostei tanto que comecei a inovar. Os pais notaram a diferença e em uma reunião uma mãe citou que mostrou as tarefas pra vizinha que ficou "abismada" com a qualidade. E assim começamos o segundo ano agora com alfabetização. 

 
 Educandário Aladdin a primeira escola.

Na foto acima , a esquerda, está uma tia materna, Tia Evanda. Esta foto tem mais de 20 anos. Olha como as pessoas influênicam sua história. 

Tia Evanda é uma tia materna. Quando eu era criança , ela já era professora. E todo ano de presente de natal ela me enviava pelo correio um envelope com atividades para as ferias. Lembro de algumas , como imagens para pintar, ligar os pontos, caça palavras e assim por diante. Não sei ao certo quantos anos ela fez. Mas lembro que o estimulo a estudar vinham principalmente deste presente de final de ano e do fardamento que outra tia materna sempre mandava da cidade de Teresina. 

Quando fundei minha primeira Escola, o Educandário Aladdin, tia Evanda veio nos visitar e pode conhecer o nosso primeiro empreendimento. Vinte anos depois recebo uma foto. Era um grupo de alunos do Sinapses (minha empresa atual) foram fazer um estágio e lá trabalhava tia Evanda que saiu na foto. Somente depois ela ficou sabendo de quem era o Sinapses. Durante muito tempo ficamos sem contato, mas sua influencia pela educação ficou marcada e teve resultados. 

O Aladdin foi nossa primeira experiência mais concreta de empreededorismo na educação. Ter uma escola é um grande responsabilidade. Cuidados com a alimentação, com acidentes, com a parte pedagógica, com as contas , passeios, o trabalho é árduo mas muito prazeroso para quem realmente gosta. 

Tenho muitas recordações positivas. Uma das minhas alunas do maternal (na verdade uma das primeiras alunas do Aladdin ) estudou dos três anos aos cinco anos conosco tornou-se minha funcionária em 2019, depois de casa e com filhos. 

Muitos dos alunos desta época hoje estão trabalhando, casados, alguns terminaram a faculdade mas também tivemos perda, alunos que morreram vítimas de doenças, violência e drogas. 

O Aladdin foi uma grande escola para mim. Nele eu aprendi sobre metodologia, didática, conteúdos, leitura , escrita tudo na prática. De domingo a domingo. O trabalho não tinha fim e nem descanso. Como fazíamos a limpeza, a parte de secretaria, coordenação e direção era muito cansativo. Mas não tenho como medir o aprendizado daqueles anos. 

Vivia na práticas as necessidades dos alunos e dificuldades. Buscava, dentro das possibilidades ajudar as famílias, e desenvolver um aprendizado que os alunos realmente aprendesse. 

O resultado foi muito positivo. Fomos uma escola envolvida com a comunidade. Fazíamos lazeres no bairro, com concursos e atrações. Participávamos de feiras, aulas passeios, gincanas e todas as datas comemorativas possíveis estávamos sempre envolvidos de alguma forma. 

Mas não foi da noite para o dia que os resultados apareceram. Conquistar confiança dos pais, amizades e carinho das crianças não é uma tarefa fácil. 

Muitos são os conflitos que acontecem no dia-a-dia da escola e o gestor precisa de muito malabarismo para resolver. Mesmo jovem  na época nos saíamos bem. Muitos são os pais de nossos alunos que ainda são amigos até hoje. 




Durante dois anos dormi em cima de uma mesa escolar.


Durante dois anos dormi em cima de uma mesa escolar. Não é termo figurado não. É verdade. Em 2000 vendi tudo que eu tinha (uma cama de solteiro, um guarda roupa velho, um conjunto de cadeiras e um fogão) e montei em minha casa minha primeira escola, o Educandário Aladdin, eu tinha 20 anos. Todas as nossas economias foram colocadas neste empreendimento, todos os cômodos da casa viram salas de aula, uma diretoria e uma cantina que veio um ano depois. Todas as nossas roupas (minha, meu esposo e de minha enteada) foram colocadas dentro de um fichário. comprei um fogão de duas bocas, compramos duas redes e eu passei a dormi na mesa da sala do infantil 1 por falta de espaço. Não tinha colchas ou colchões pq não tinha onde guardar. Tudo tinha que estar pronto as seis horas e ninguém percebia que agente dormia dentro da escola. Almoçávamos nas carreiras pra que as treze horas estivesse tudo em ordem. As dezessete horas eu ia pra Universidade Federal do Piauí e só retornava as onze horas muitas vezes sem jantar, lia ou dormia no ônibus (quarenta e cinco minutos de rodoviaria circular quem não dorme). Foi no Aladdin que eu aprendi a fazer as belas tarefinahs de casa no stecil com a tia Francisca e a tia Francisca Salva Salva(Salviana) que conhece bem esta história. Foi lá que eu comecei tudo que sou hoje. Quantas noites eu passei em claro rodando as tarefinhas no mimeografo.

Quantos caderninhos eu fiz a mão. Quantas capas pintamos uma a uma de giz de cera (Haviam mães que colecionavam as capinhas de provas de tão lindas que ficavam). Tudo que comprei foi fiado. Cadeiras, mesas, tudo. Paguei tudo. Em três anos nos tornamos a melhor escola do Bairro. Nosso ensino era referência de qualidade. Aluguei duas casas próximos a minha, as vinte crianças que começaram chegaram em 2003 a superar o nosso espaço. Infelizmente meu sonho acabou quando eu sofri um acidente, quebrei parte da face e fiquei meses em recuperação. A escola entrou em crise, os alunos saíram e eu fali. Mas agradeço a cada dia que passei no Aladdin, a todas as professoras que estiveram comigo, cada uma que me ensinou e que aprendeu comigo. A todos os pais que depois de 10 anos ainda são meus amigos. meus pequerruchos que são moças e rapazes e ainda me chamam de tia.Os meus alunos que morreram no trafico, as que engravidaram cedo, as que foram embora deixaram saudades. Mas foi no Aladdin, dia e noite trabalhando que aprendi que havia em mim algo que não era normal.Não desisti.
Estudei dia e noite e passei em um concurso público ainda em 2003.Montei minha segunda escola em 2007...mas está é uma outra história.(Mesa da foto é igualzinha a que eu dormia só que a minha era pintadinha de verde) 




Minha Primeira Aula na escola pública...



.Foi em 2001.Meu estágio obrigatório da faculdade onde cursava Licenciatura em História. As aulas teóricas se resumiram em aprender a fazer planos e planejamentos de aulas. Achei que ia ser fácil. Já tinha experiência com a educação infantil e pensei estar preparada. Mero engano.
 Foi horrível a primeira aula. Ao chegar a escola para me apresentar fiquei sabendo que a turma estava sem professor de História por quase todo o semestre, não recebi nenhuma orientação sobre as turmas. Apenas me mostraram o horário, onde ficavam guardados os diários e onde eu deveria assinar a frequência. Peguei o livro didático e o horário e fui embora, fiz o que havia aprendido nas aulas de didática: planejei minha aula.
Na segunda-feira ao chegar a escola me deparei com muitos alunos fora das salas de aulas, fui a sala do oitavo ano e estava praticamente vazia mesmo depois de bater o sinal. Os alunos continuaram nas mesmas conversavas que estavam. Procurei a coordenação e ninguém fez nada. Fiquei meio atordoada sem saber o que fazer então voltei pra sala e esperei tocar o sinal novamente. 
A segunda aula não foi diferente ao entrar na sala do oitavo ano os alunos estavam gritando, e conversando sem parar, ninguém prestou atenção para minha chegada. Me apresentei , chamei atenção deles, tudo em vão todos continuavam na maior algazarra.Poucos alunos para observar o que eu falava . Então tentei seguir o planejamento. Tentei fazer a chamada.Não consegui. Tentei fazer uma dinâmica. Não consegui. Os horários se passaram e eu estava lá perdida naquela imensa sala. Com vontade de chorar.
De sair dali correndo. Bateu o sinal...Eu só tinha duas turmas de oitavo ano. Fui a secretaria guardei a caderneta. Procurei a coordenação mas ela estava ocupada e não teve tempo para me ouvir. Fui pra casa. Na quarta tive que voltar. Fiquei muito angustiada. Como eu iria conseguir da um conteúdo naquelas salas.
Fui pra escola. Como não tive os primeiros horários cheguei um pouco mais cedo na escola, procurei conversar com alguns professores que estavam na sala dos professores e todos disseram a mesma coisa: - menina se estressa não, é assim mesmo, isso aqui é um inferno.
Quando bateu o horário pra eu ir pra sala , não estava muito entusiasmada. Ao chegar a sala minha presença nem foi percebida. Dei bom dia , meia duzia me respondeu. A sala era enorme, tinhas uns quarenta alunos entre 12 a 14 anos no oitavo ano. Poucos usavam fardas, as meninas com a farda dada um nó para trás, umas viradas para outras conversando sem parar. As cadeiras todas fora da ordem, grupos formados somente para a conversa. 
Tentei dar sequência ao planejamento. Depois de uns vinte minutos tentando dizer o que eu estava fazendo ali.Parei no meio daquele enorme quadro a giz. Olhei para a sala. O riso dos alunos era tão alto que eu não ouvia minha voz, uns corriam pela sala, outro gritavam, faziam gestos obscenos, então vi alguns olhando pra mim.
Quietos. Olhei para a porta. A vontade de ir embora foi muito grande. Continuei tentando falar mas minha minuscula presença não fazia com que prestassem atenção a mim. O barulho era tão grande que resolvi que eles iam me ouvir. Então subi na mesa e comecei a gritar: Ei,E,Ei eu estou aqui, vocês podem me ver agora. As risadas foram inesperadas, os que estavam de costas viram para ver aquilo. Então começaram a sorrir e a dizer:Que diabo é isso , tão mandando até louca pra cá. 
E eu continue lá em cima da mesa, gritando e batendo palmas e comecei a cantar: Eu estou aqui e vim foi pra ficar! Eu estou aqui e História u ensinar! Ei você de azul como é o seu nome? Então eles começaram a prestar atenção no que eu perguntava a eles e comeram a dizer os seus nome.
Então eu me apresentei. Na sexta quando eu cheguei o porteiro comentou com outra pessoa: "parece que a bicinhinha é doida, subiu numa mesa" Eu passei e fingi que nada ouvi, peguei o diário e fui pra outra sala Chegando lá os alunos tinham tido horário vago e estavam todos dispersos Então sai chamado eles até que consegui que alguns viessem para sala. Levei um som com uma fita e então coloquei a música e comecei a fazer a chamada. 
A cada nome eu perguntava quem era e ia até a sua cadeira e perguntava cadê o livro e o caderno, a grande maioria não trazia pra escola o livro e diziam:- trazer o livro pra quer se os professores nem usam. Neste dia consegui introduzir o assunto Descobrir que tinha uns alunos que eram interessados e muito prejudicados pelo andamento da turma. Na terceira aula eu ja sabia o nome de quase todo mundo, e como eu faço até hoje vou falando sobre o assunto e perguntando o que sabem pelo nome deles. 
Alguns riam, debochavam mais ai também fazia gracinhas com eles e dava exemplos de como era importante o que eu tentava mostrar a eles. Tentei fazer uma atividade de classe. Claro que eu não consegui da primeira tentativa. Uns não tinham cadernos, outros não tinham lápis ou caneta. 
Na aula seguinte cheguei cedo, quando o sinal bateu eu já tinha colocado as cadeiras em círculos, tinha feito o nome deles em folha de papel e colado com fita quando entraram já acharam estranho. Coloquei uma frase no quadro:Você está preparado? Eles ficavam se perguntando o que era aquilo. Então fiquei no meio do grande circulo e fiz a pergunta que estava no quadro.
Eles perguntaram para que? Eu então pedi que cada um lesse o que estava atras do nome deles em cada carteira. E cada um foi tirando a fita e na ordem iam lendo o que escrevi: Vc está preparado para aprender? para descobrir a sua história? para crescer? para descobri quem eu sou? e assim eu fui criando frases que os deixaram intrigados. Então pedi que eles escrevessem as respostas e me fizessem qualquer pergunta que eu iria responder. Passamos dois horários naquela dinâmica e eu todos estavam sentados, escrevendo e fazendo perguntas. Eles perguntaram se eu era casada, se tinha filhos, onde morava e etc.
 Na seguinte levei videos sobre o assunto do livro didático e a aula foi mavillhosa passei um resumo e dois alunos trouxeram na aula seguinte. Então decidi que iriamos fazer o resumo na sala, e comecei a ir em cada cadeira , puxar os cadernos lá de baixo das cadeiras e eles dizendo a gente vai fazer não professorinha... eu nem tenho caderno... o outro eu nem tenho caneta...Então pra surpresa deles eu abri a caixa que eu havia levado e tirei folhas de papel, coleções, lápis e canetas. 
Pedi que eles sentassem no chão , que faltassem suas carteiras e que escrevessem ou desenhassem qualquer coisa que tinham visto no filme. Então começou o arrasta ,arrasta de cadeiras, e todos sentaram ou deitaram no chão e começaram a fazer a atividade. Foi quando vi a coordenação da escola entrar na sala e viu todos os alunos no chão. la olhou pra mim e disse: Professora antes da você sair passe na minha sala.
 A aula continuou. No final fui a sala da coordenação e fiquei sabendo que os professores estavam reclamando do barulho das minhas aulas. Que não podiam dar aula comigo levando musica para a sala e que eu estava ali pra dar o conteúdo e que eu tinha que fazer uma prova com eles , pq eles não tinham nota em história. Fui pra casa pensando como fazer uma prova com tantos conteúdos e em tão pouco tempo. As aulas seguintes foram voltadas para o assunto que eles deveriam ver. Selecione uns capítulos e fiz um acordo com eles.
Eles precisavam de notas, eu precisava estar ali, então eu faria o melhor para que eles aprendessem e eles iriam se esforça para aprender. Levei cartazes, fiz debates entre eles e até uma mini gincana entre os sétimo e oitavo tudo voltado para os assuntos.
 Como eles não tinham visto nada a coordenação permitiu que eu escolhesse os conteúdos. Então depois de dois meses consegui fazer a prova. E a grande maioria consegui ótimas notas. Quando cheguei na escola com as provas , tudo corrigidas com recadinhos especiais e muito feliz fiquei sabendo que eu não podia mais ir até as salas , o meu estágio tinha acabado e tinha chegado um professor efetivo para as duas turmas. fui orientada pra deixar as provas em cima da mesa da coordenação e que eu pegasse minha ficha de estágio e levasse pra faculdade.
Fui embora muito chateada. Quando cheguei na parada do ônibus, estava com um enorme nó, uma vontade de chorar. Quando alguém veio por trás e me abraçou e disse: Oi fessorinha! e me beijou no rosto e saiu correndo para entrar na escola. Sorri e entendi que minha jornada estava só começando e eu já tinha feito minha parte ali.



foto tirada antes do acidente

O grande acidente.


Em 2003 eu tinha vinte e cinco anos e enfrentava uma grande crise financeira. O Educandário Aladdin já não estava bem, muitos de nossos clientes  foram para a escola pública devido a politicas do bolsa escola (hoje chamado de bolsa família) criado pelo então Presidente FHC e ampliado no governo Lula levou a muitas pequenas escolas a falência. Centenas de família tiraram seus filhos de escolas particulares de pequeno porte e as colocaram nas escolas públicas a fim de serem contemplados com o benefício. 
Nossa escola era custeada com pequenas mensalidades, que na época giravam em torno de R$ 20,00 a 40,00 reais. Com a saída de muitos alunos tive que buscar uma outra fonte de renda.
Então comecei 2003 com um único objetivo. Dar aula para o ensino médio e pré-vestibular. Era meu ultimo ano na faculdade e queria me firma no mercado competitivo de professores de nível médio que ganham melhores salários e eram mais respeitados. Fiz currículos e gastei muita sola de sandálias deixando nas escolas. Fui chamada para cinco testes e passei em todos eles. Uma das escolas me ligou mas a coordenação me propôs que assumisse umas turmas de sétima série na época( hoje oitavo ano) eu me recusei pois meu objetivo era ensino médio e pré vestibular. No dia seguinte a mesma coordenação me ligou novamente me chamando para o planejamento de uma nova turma de pré-vestibular da escola. Das cinco escolas eu escolhi apenas duas. Porque pela manha continuaria no Aladdin, então daria aulas a tarde e a noite em duas vezes por semana. Preparei o planejamento, material para as apostilas ( que naquele período era a corrida pelo vestibular) então corríamos atrás de todas as provas anteriores .
Três dias antes das aulas começarem, voltava de uma apresentação de um circo as dez da noite em uma bicicleta emprestada. ao descer uma ladeira ( rumo a baixo) perdi completamente os freios, não conseguia parar, carregava minha enteada com dez anos na parte de traz que gritava para mim parar, mas eu não conseguia. A velocidade era muito grande, o terreno eram feito de pedras grandes vermelhas e sentia toda a bicicleta tremer. Senti naquele momento que iriamos cair. Lembro de fazer uma pequena oração. Entreguei minha vida a Deus e pedi que nada acontecesse a minha enteada.
Acordei horas depois num pranto socorro. O que vou relatar agora são pequenos flashs de memória ou imaginação dos relatos que ouvi depois do acidente. 
Lembro de conversar com algumas pessoas que perguntavam de onde eu era, sentada em uma enorme pedra, mas não conseguia falar porque minha boca estava cheia de sangue. 
Lembro de ver meu marido correndo e gritando. De estar deitada em uma maca tirando RX.
Contaram que a ambulância não chegava, então uma das pessoas me pegou no colo e saiu correndo até o hospital., que não era muito longe do local do acidente.
O que me lembro, depois de já estar consciente eu já estava no HGV ( que era o maior hospital da cidade de emergências e urgências) onde meu esposo teve que brigar muito pra conseguir um leito, lembro de me sentir tonta e desmaiar, depois lembro de estar na sala da odontologia e o bucomaxilo tentava suturar minha boca e tentar estancar o sangue que saia dela, só depois fiquei sabendo que eu havia quebrado o maxilar, que vários de meus dentes sacaram com raiz e tudo e que outros o dentista puxou com as mãos de tão destruídos que estavam.
Não havia leito disponível. O que me levou a um novo desmaio pois eu tinha que esperar por um leito em pé. Depois de horas perdendo sangue e de ter passado por todos os procedimentos com o bucomaxilo. Depois de desmaiar me jogaram em uma maca sem panos e por lá fiquei até o resto da noite. Por volta das dez horas do outro dia, meu rosto estava completamente deformado pelo inchaço, ai conseguiram um leito e as quatro da tarde eu fui para um leito. Fiquei sem comer e sem beber e sentia muita dificuldade de respirar. Não consegui falar, levantar a cabeça ou até mesmo me mexer por mais de vinte e quatro horas, só no dia seguinte fui operada, depois de seis horas de cirurgia voltei pro quarto onde apenas uma amiga deixou sua família e foi me ajudar. Passei parte da noite em vômitos devido ao efeito da anestesia. 
Fora meu esposo, somente minha sogra e esta amiga foram me visitar os quatro dias que passei internada. Foram os piores dias da minha vida. Mas ficariam ainda pior.
Minha enteada  teve apenas arranhões e umas luxações na coxa, foi liberada na manhã seguinte do acidente e ficou na casa da minha sogra.
Os dias seguintes foram terríveis. Não conseguia me olhar no espelho. Eu estava completamente deformada. Os antibióticos e analgésicos mal faziam efeitos pois eu gritava de dor no maxilar. Colocaram uma pequena placa (que eu tenho até hoje) pra segurar o maxiliar mas ela começou a ter rejeição e abriu um Durante dois anos dormi em cima de uma mesa escolar. no meu queixo e começou a sair. As dores eram insuportáveis. Os antibióticos ficaram mais fortes e mais e mais remédios foram passados até a infecção causada pela rejeição da placa ser controlada. Tenho as marcas até hoje da rejeição da placa no meu queixo.
Foram seis meses sem comer nada sólido, depois de um ano do acidente eu mal conseguia comer um pedaço de melancia. Depois dos seis meses meu rosto voltou (quase) ao normal, porque ele não é normal até hoje kkkk, consegui usar uma prótese dental, e voltei a falar sem tanta dificuldade.
Foto tirada uns sete meses depois do acidente.

Duas coisas me marcaram muito neste período. A primeira a imagem de minha colega todos os dias chegando com uma panelinha de sopa liquidificada que era meu almoço e janta. A segunda ver todos os meus sonhos sendo destruído. Minha escola foi a falência. Perdi o emprego nas duas escolas de ensino médio e pré-vestibular, chorei tanto ao receber os convites de formatura da qual eu não pude estar presente.
tive que devolver as casas que havia alugado para a escola. Tinha dívidas com professores, aluguel, água, luz e não tinha forças para trabalhar.
Passava parte do dia trancada e uma casa com dois cômodos. Fechava tudo. Não queria ver ninguém. Não queria que ninguém me visse. Não queria viver.



André Victor aos 4 meses

Um milagre em minha vida...


Em setembro de 2003 descobri que estava gravida. Depois de oito anos de casada, sem nunca ter tomado um anticoncepcional, ou usado qualquer meio anticonceptivo nunca havia engravidado. Não entendia o porquê, mas também não buscava saber e nem tratamento. Estava tão ocupada com faculdade e a escola e já criava uma menina, filha do meu esposo, que um bebê não era planos em momento algum.
Meu casamento fora muito difícil. No segundo ano de casamento, meu esposo teve crises de alcoolismo, o que o levou a depressão. Passava muito tempo sozinha, triste e isolada.
Com o acidente tudo piorou. Como eu não podia ajudar, meu marido teve correr atrás e tentar sustentar a casa sozinho. Passava o dia fora, chegava tarde e eu ficava isolada na maior parte do tempo.
Entre uma briga e outra, um dia percebi que meu corpo estava mudando. Mas que minha menstruação não vinha, mas não era nada de novidade, porque sempre era assim e eu passava meses sem menstruar por isso não me preocupava.
quando fui ao ginecologista ao me examinar ela disse de cara que eu estava grávida, eu ri e ela disse e já está é pra nascer. Ela riu.
Fizemos uma ultrassonografia e eu estava com vinte semana e uns quatro dias. Pasmem!!!
Eu nunca senti enjôo, tonturas ou qualquer outro sintoma. Ou eu senti e como estava muito deprimida nem percebi que algo mais estava acontecendo.
Ai entrei em parafuso, porque sabia que esta criança não nasceria normal!!! Eu tomava um monte de remédios, eu não tinha tomado vacinas, não me alimentava, como esta criança ia nascer.
Mas minha vida mudou completamente nas semanas seguintes.
Acordei certo dia, tomei banho, amarrei os cabelos, fiquei sentada olhando pra minha casa onde era parte da minha escola e decidi que eu iria sobreviver a tudo aquilo. Joguei todos os remédios fora, marquei consultas, peguei todos os meus livros e voltei a estudar.
Como eu passava o dia sozinha com minha enteada tinha muito tempo para estudar. A obstreta passou um ovo de galinha cozido em jejum e eu comi durante quarenta dias religiosamente no mesmo horário para que a criança se desenvolvesse.
surgiu um concurso na área da saúde com nível médio e eu passei a estudar manhã, tarde e noite. a barriga começou a crescer e consegui uma escola para dar aulas no turno da tarde. Onde trabalhei até os nove meses. Fiz o concurso já com barrigão ( que não cresceu muito).


André Victor aos oito meses

Meu filho nasceu no dia 02/fevereiro de 2004, com dois quilos e quatrocentos gramas, ficou dois dias internados porque não quis mamar. Mas nasceu completamente normal, fora a preguiça de mamar, pois as enfermeiras passavam horas tentando acordá-los e eu começava a chorar e a ficar tensa. Ele só mamou no dia seguinte as dez da manhã, então deu Hipoglicemia e foi para o soro. Passou dois dias no soro e eu passei dois anos explicando esta história pq rasparam a cabeça dele pro soro e o cabelo quase não nasceu e as enfermeiras rasparam dos dois lados pra ficar "Stiloso" kkkk.

André Victor com 1 anos

Fui convocada para a prefeitura de Teresina em Abril de 2004, mas só assumi em maio porque o André era muito pequeno. Vendi todas as coisas da escola, conseguimos pagar as dívidas. O meu rosto foi aos pouco voltando ao normal, ou quase isto. Cuidava da casa no turno da manhã e trabalhava num hospital no turno da tarde.
Em 2006 fiquei gravida pela segunda vez. Agora de proposito!!!!!
Linda Rafaelly nascem em 10 de Maio de 2007 com 3,7kg. Passei me dedicar mais aos meus filhos. 
Mas continuei trabalhando no hospital.




Linda Rafaelly com 4 meses

Mas a minha fase só mãe durou apenas mais um ano e a minha inquietude de professora me levou de volta as salas de aula em 2008 quando eu montei minha segunda escola. Mas esta é uma outra história.


Linda Rafaelly aos 3 anos


André Victor aos sete anos


Linda Rafaelly - 7 anos


André Victor - 10 anos



Minha Segunda Escola o Centro de Ensino Destak


Parei em 2009 ainda tem muita história pra contar....Continua......